segunda-feira, 29 de junho de 2015

Contexto Social?

Que papo é esse de contexto social? Que isso tem a ver essencialmente com a literatura? Obviamente, o autor precisa embasar-se em alguma realidade social para criar suas obras, o que não quer dizer que o contexto maior – a filosofia que subjaz à trama – seja dependente de tal realidade. Por exemplo, o livro O Jogador, de Dostoievski, poderia ser ambientado em qualquer lugar do mundo onde exista cassinos ou simulacros deles (obviamente, não se pode contar a história de um jogador numa tribo de índios, mas penso que me fiz entender), o que não acarretaria perdas consideráveis nas ideias principais do livro – as quais são atemporais e universais. Refiro-me, neste caso, ao indivíduo que é arrastado a uma vida terrível, desprezível – que não estava em seus planos – e passa a gostar dela… transforma-se num jogador sem querer. Muitos de nós (quase todos, senão todos) nos tornamos jogadores sem querer… é uma ideia universal. Literatura é formada por ideias.
Claro que a literatura não surge do nada. Não vemos uma paisagem e, emocionados, escrevemos obras-primas. Dante viu a paisagem que mais o impressionou – a tal da Beatriz – e escreveu o maior poema de amor – entre outras coisas maiores que isso – não inspirado somente por sua musa, mas por autores que vieram antes dele e lhe apresentaram ideias fora do espaço e do tempo. Ou seja, autores grandiosos aprendem com autores que são extemporâneos e souberam criar uma filosofia poderosíssima sob a casca que chamamos de contexto social (e tantos autores modernos e tantos doutores de araque escrevendo sobre crítica social… por que não vão fazer aviõezinhos e, assim, gastar menos papel com algo mais produtivo? Ou nas palavras de Coriolano, do Titio Balanlança, “ide enforcar-vos!”).
Dizem os mais antiquados estudiosos que a sociedade precisa da literatura para enxergar a si mesma… lindo conceito e ultra datado! Hoje existem novelas e jornais que já cumprem bem a função de mostrar nossa rasa modernidade a si mesma. Além do que, a literatura de crítica social não tem feito mais do que conseguir publicações para seus autores – a mágica palavra “currículo” – e ser lido por acadêmicos (só acadêmicos), não atingindo seu público-alvo (os oprimidos, as minorias, etc.), nem fazendo por eles mais do que os políticos. Aliás, perto dos autores e estudiosos de textos diversos sobre a crítica social, os políticos são os maiores bem feitores da Terra, pois, bem ou mal, pouco ou muito, eles já efetivamente ajudaram alguém (só para constar, acho que em maioria os políticos brasileiros constituem a grande decadência da razão – e há quem está abaixo deles, mesmo tendo infinitamente mais formação). Enquanto isso, o que Shakespeare escreveu sobre Veneza, sobre Dinamarca, sobre a própria Inglaterra, faz sua réplica por todos os continentes sem que seus habitantes precisem ter lido Shakespeare (porque este nos lê com mais facilidade do que nós podemos lê-lo, segundo o crítico Harold Bloom). E mesmo se homens e mulheres forem habitar a lua, Marte ou outra galáxia distante, ainda prevalecerá o que disse Shakespeare, Dostoiévski e outros gênios, em suas obras desvencilhadas de tempo e contextos superficiais.
Então pra que contexto social? Sim… para mulas sem alma terem o que dizer.      

Nenhum comentário:

Postar um comentário