segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Filha Ingrata (Conto)

Sua mãe era quase uma sacerdotisa de uma religião que mais pregava a espiritualidade em vida do que uma salvação após a morte. Uma pessoa notável em sua sociedade que, seguindo os próprios ditames, era gentil para com todos, bondosa, honesta e sincera na medida em que lhe era permitido ser. Nunca fez um mal a alguém de que pudesse se lembrar; e sempre desencorajou as práticas ruins. Costumava aconselhar as mulheres e, até, alguns homens, a como se portarem socialmente e vencer problemas e depressões. Ela era um exemplo para a humanidade. E teve uma filha, a quem chamava de Pérola (mesmo que seu nome de batismo fosse Maria Rita, para parecer-se com o seu, Maria Carolina).
Pérola foi criada com todo o rigor espiritual que sua mãe sacerdotisa tomava como certo, mas também com todo o carinho e atenção. Sua educação foi a melhor possível; invariavelmente, era a menina recompensada por seus triunfos e, na mesma proporção, repreendida por seus erros. Cresceu aprendendo bem a diferença do que é certo e errado até o ponto de ruptura entre essas duas polaridades. Bebeu o conhecimento de grandes autores e decorou seus pensamentos. Foi obrigada a passar na escola sem jamais repetir um ano ou tirar nota baixa. Foi afastada dos rapazes em seu palácio familiar. Teve noções desde muito cedo sobre família, retidão e amor celestial e sobre prazer, sujeira e banalidade.   
Assim, Pérola começou a se prostituir com quinze anos apenas, apesar de ter perdido sua virgindade muito antes. Sua mãe, por mais que soubesse das inúmeras práticas vergonhosas dela, acreditava que Pérola voltaria a ser a doce menina de quem ela cuidou com o mais puro amor celestial. Mas só pôde manter o rigor de suas lições até a filha completar vinte e um anos – ou seja, sua maioridade definitiva. Pérola estava livre, então… morando em casa de sua mãe, o que fez até seus sessenta anos, jamais tendo trabalhado além da prostituição ou tido reais necessidades.
Quando Pérola envelhecera – e tornara-se uma joia enrugada – sua mãe, que ainda rezava todas as noites para a recuperação moral de sua prole, ficou doente de maneira terminal. Emagreceu absurdamente, indo dos 70 aos 35 quilos em poucos meses. De cama em casa, seca como se fosse um galho caído num inverno que passou, não tendo forças nem para se levantar, foi cuidada por todas as pessoas que conhecia. Todos vieram prestar-lhe ajuda, tal e qual prestariam a Cristo, se ele tivesse existido nos dias atuais. Exceto uma pessoa não ia ao quarto ver Maria Carolina. E essa abstinência já durava três meses.
Sentindo-se morrer cada vez mais, não querendo ir ao hospital para perder tempo, Maria enxergava aquele vulto familiar passando diante da porta, sem deter-se. Nem ao menos olhava para dentro do quarto. Passava rapidamente, como se transtornada por alguma correria. E isso mais machucava a enferma do que a doença poderia fazer. Ao notar os olhos chorosos da mulher que jamais chorou, esforçando-se ela para demonstrar a costumeira serenidade, seus fiéis foram tentar convencer Pérola a ir ver sua mãe e desculpar-se tantas vezes que pensaram que jamais conseguiriam convencer a puta sexagenária.
Mas conseguiram. Foi num domingo pela manhã, tendo-se tornado a casa de Maria Carolina um templo de fé e união para seus fiéis, que eles a convenceram. Pérola tomava café puro, sem açúcar e já frio, girando a xícara para ver o redemoinho que nela se formava, quando todos foram à cozinha falar com ela, praticamente em uníssono. Ela, sem nada responder, nem lhes devolver os olhares duros, pousou a xícara na pia. E de cabeça baixa, como se pesarosa ou resignada, foi ao encontro de sua mãe. Estancou na porta e, durante um milésimo de segundo, Maria Carolina sorriu ao vê-la.
– Por que tu não morres logo, sua diaba do rabo sujo? Por que não te desprendes dessa carcaça podre? Quem te ama que te limpe, cadáver horrendo! – Gritou Maria Rita e deixou o quarto. Jogou fora o café e quebrou a xícara para não ter que lavar. Saiu em uma odisseia orgíaca, regressando uma semana depois. 
Maria Carolina faleceu à tarde, rodeada por seus amigos que fizeram de tudo para consolá-la. Morreu chorando como um bebê manhoso, paralisando sua face nessa carranca infantil, pensando se deveria ou não ter tido outros filhos. Mas isso nunca foi possível para ela, se quisesse conservar suas leis conjugais e espirituais: seu marido, o homem a quem devotou amor eterno, por sorte já era morto antes de Pérola nascer. Um acidente e morte súbita… não por doença e agonia de longas décadas.       

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