terça-feira, 29 de julho de 2014

Nossa Pele de Cores e Formas


Das praias conquistadas até as cidades imensas,
O ouro em prédios e sonhos transformado,
Os rios e mares domados por naus brasileiras,
Do sangue que tingiu a bandeira com deformações
Ao triunfo em que se espelham todas as nações,
Depois de termos vencido e morrido tantas vezes,
De com braços valorosos o próprio peso soerguido,
Onde está tua grandeza, Brasil retumbante?

Pois tuas veias de água estão cheias de cardumes;
Tua cabeleira de florestas, um reduto de espécies;
E em tua gente tão forte, honesta e aguerrida,
Vês as marcas de tua mais rara recompensa.

Onde estão tuas belezas? A glória que encerras?
Em toda os ares, dirão os pássaros!
Em todos os lagos, dirão os peixes!
Nos cantos recônditos, dirão os seres místicos!
Em todas as cidades, diriam homens e mulheres!

Mas a enxergar a própria vastidão nos recusamos
Por confundi-la com o que não somos…

Porquanto não precisas, país de maravilhas,
De uma roupagem com a qual te apresentes,
Sejam os ventos os arautos de tua constância;
E, desfraldados ao longo de territórios infinitos,
Os lábaros bordados de nossa pele de cores e formas,
Mesmo que, às vezes, por causa da ilusão de um desamor,
Da injustiça que a nós declaramos por ignorância,
Pareça-nos lisa e incolor.

domingo, 27 de julho de 2014

Escritores Masturbadores: a Era da Literatura e Educação sem Prazer!


Olhai melhor! Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é vivo, o que ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que não existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma ideia. Dostoievski. Memórias do Subsolo. (Trad. Boris Schnaiderman)

            Atualmente, o mundo lê mais. O mundo escreve mais. E que prejuízo para nossas mentes! Porque ler demais pode significar não ler nada, em absoluto, considerando que uma leitura apurada, uma leitura verdadeira é mais orgânica do que intelectual. Porque o ato de ler deve referir-se à forma que movimentamos o que lemos e não à quantidade de texto decoramos. Às horas que, tediosamente, ficamos a passar os olhos sobre palavras que serão inexpressivas senão as fizermos caminhar.
Obviamente, não me refiro à necessidade de concretizar o que lemos nos textos porque, além de muitas filosofias serem inaplicáveis para a sociedade politicamente correta de hoje, realizar o quer que seja não é uma obrigação. Mas, se nos afirmamos leitores, se nos gabamos de ler muito, temos de pensar condizentemente às leituras que fazemos.
É claro que há diferença entre ler bons e maus livros, por mais que o sistema politicamente correto de ensino diga o oposto, sendo que para qualquer educador toda obra tem sua intenção e sua fruição, salientando que mesmo as obras comerciais e supérfluas têm a utilidade de conduzir os neoleitores aos clássicos. Pois bem, digo que tais obras não tem utilidade nenhuma a não ser fazer com que esses leitores que odeiam ler achem um motivo para arrogar-se desse hábito, tal como se dá, na maioria das vezes, com os leitores mais experimentados, os que leem com uma fome de fama os clássicos, sobretudo, os acadêmicos, que se arrogam de conhecerem cada frase marcante, cada passo de um autor em suas obras, e pensam como animais erroneamente domesticados. Eles, assim como os neoleitores, perderam a chance de ver telenovelas.
Pois ler, em sua mais alta significância, não é decorar (significando muitas vezes esquecer), não é dissecar obras e autores, não é saber sobre épocas, escolas e estilos literários, sobre representações sociais e toda essa baboseira que não condiz nem com a literatura nem com a sociedade, mas sim internalizar uma nova consciência. E é justamente o que não ocorre na grande maioria dos casos, pois os tais grandiosos leitores, supremos apreciadores de arte, continuam a pensar como se nunca tivessem lido nada. E escrevem, pedante e rebuscadamente, com ares de novidade o que é dito e qualquer cartilha pedagógica, pois esses pseudo-leitores, pseudo-estudiosos, querem ter reconhecimento como “salvadores” do mundo, não como pensadores do que é novo para uma sociedade tão enfraquecida intelectualmente. Organicamente.
Então, preferível seria que lessem apenas poucas obras e as digerissem bem, não as decorando necessariamente, mas incorporando a consciência do livro e a complementando, dia após dia. Lemos um livro grandioso e, como ocorre com qualquer leitor experiente a confrontar qualquer escritor poderosíssimo, deixamos escapar toneladas de conteúdo, as quais passaremos o resto da vida a resgatar ao relermos a obra. Pois nunca lemos um livro bom, mas iniciamos contato com ele, com uma vida orgânica que se desenvolve com o tempo (assim como nos desenvolvemos para melhor entendê-la), mais do que fazemos com uma pessoa, pois estamos lidando com a criatividade e a potência intelectual de um gênio, de alguém que fez o mesmo tipo de leitura a que me refiro e a converteu em literatura, através da máxima capacidade de seu talento.
Desse modo, ler é perder toneladas (o que é muito válido: perder para ganhar, esquecer para reconstruir), mas também é corporificar o que conseguimos colher dos livros como se corporificássemos a nós mesmos (de um jeito ou de outro, é isso o que fazemos ao ler como se deve) e, principalmente, continuar a escrevê-los enquanto nos movimentamos. Transfigurá-los. O mesmo se dá com a arte de escrever e os escritores masturbadores. Ou nas palavras de Schoupenhauer, gastadores de tinta. Um escritor, para justificar sua utilidade nos dias de hoje, visto que tanto já foi publicado e tantas obras essenciais, tem de prover um material de ideias que sejam o mais original possível, cujas reflexões teçam caminhos inesgotáveis ou, no mínimo das hipóteses, extemporâneas ou contrárias às reflexões que estão em voga em seu tempo (não desconsiderando as que o antecedem), pois a função do escritor é continuar ou opor-se ao que está sendo dito, senão por qual razão ele deveria escrever? Para corroborar com o que já existe? Então, neste caso, o trabalho dele limitar-se-ia, se houvesse justiça da parte do escritor para com seus leitores, a apenas indicar obras definitivas sobre aquele assunto. Ou compor uma obra definitiva sobre o assunto se quer realmente escrever para ser lido por grandes leitores. Para gerar mero entretenimento comercial? Então, qual a diferença das obras desses escritores para os programas televisivos, essas hediondas criações da mais infame estultice? São melhores que as teorias altruístas da modernidade, que envenenam o cérebro sem nada acrescentar? Qual é a sua essencialidade em uma geração de acomodados, que se nutrem somente de baboseiras em seu conforto orgânico e intelectual? 
Uma obra essencial deve ser aquela que nos extermina. Em outras palavras, que destroça a consciência de seus leitores para que neles uma nova interioridade possa nascer. E somente obras essenciais deveriam existir, pois as demais não passam de fiapos de raciocínio perto delas. Contudo, na era da igualdade, do nojentamente correto, é natural impelir a todos para a escrita. E querem que todos sejam lidos! O mel[1] estragado que regurgitam deve ser consumido por todos!
“Somente o impublicável torna-se público[2]”. Críticos literários têm-se debruçado durante décadas sobre as obras de grandes escritores, e em seus melhores comentários, suas melhores análises, não fizeram mais do que compor pés de página. Obviamente, nos melhores casos são pés de página interessantíssimos, mas os críticos não chegam nem perto do vigor original da obra a que se propuseram estudar. Nos casos piores ou medíocres, ler é só desperdício de tempo. O máximo que uma obra literária produz, tratando-se de herança artística e cognitiva, é outra obra literária de qualidade equivalente ou superior; o máximo que um autor grandioso produz são outros autores grandiosos, não estudiosos de coisa nenhuma. Um mundo que produz outros que lhe são distintos, em todos os quais vida existe.   
No entanto, cada vez mais, publicam-se estudos horrorosos sobre literatura, os quais, de modo fascista, são repassados aos alunos para que estes os leiam como um livro sagrado. E são textos horríveis e maçantes! Pois como querem delinear o que fora criado para não ter forma? Interpretar, petrificar o que é plurissignificativo? Empalhar o que nasceu para ser tão vivo quanto uma baleia? Então geram-se textos sem a menor fruição artística, embora falem também sobre arte; sem inventos de linguagem, embora também queiram ensinar sobre como ser criativos. Utopias fantasiosas que mostram o que não existe nem na literatura nem na realidade do mundo! Um idioma próprio e engessado, alheio a tudo que é vivo e fluído: eis o saber acadêmico. E todos têm de aprendê-lo para ser alguém na vida, pagando caro por isso (referindo-me a tempo, a dinheiro, a ânimo, etc.), tornando-se um ser humano funcional. Homens e mulheres mortos.
Pois, como também não surgiu nenhuma verdadeira na política moderna (apenas simulacros), nenhuma solução social foi criada na literatura (e deveria?), apesar de lhe terem essa função restritiva. Pelo contrário, quanto mais “soluções” aparecem, agrava-se qualquer situação (quase o ditado popular “quanto mais rezo…”). Ao que me parece, é quando se desenvolve uma solução que se deve temer o pior. Igualmente, não tendo-se o que dizer na obrigatoriedade de dizer alguma coisa, muitos teóricos optam por expor, em termos academicamente rebuscados, o que é ridiculamente óbvio. Linguistas sabem o que estou dizendo ou deveriam saber. Aliás, muitos profissionais das áreas humanas deveriam saber disso e, se houvesse justiça ou decência no mundo (e não apenas guerra lodosa e sobrevivência dos mais fascistas e corruptíveis), rasgar seus diplomas. Muitos doutores não sabem ler, pensando e comportando-se como uma infantilidade que, de tão estúpida e grosseira, em muitos jovens não se encontra. Vivem em sua disputa imbecil, adulam quem lhes convém, e esquivam-se de qualquer argumento que os possa desbancar: eis no que consiste sua pétrea supremacia.

MOTH - Pois então, senhor, estudar é tão difícil assim? Aí está como estudamos o três em menos tempo do que o necessário para piscardes três vezes. O cavalo que dança vos dirá como é fácil juntar "anos" à palavra "três" e estudar três anos em duas palavras.
ARMADO - Bonita imagem!
MOTH (à parte) - Que a zero vos reduz. 
(Shakespeare. Trabalhos de Amor Perdidos. Trad. de Carlos Alberto Nunes.)

Já disse em outros textos que os argumentos devem ser avaliados pelo que significam e não pela importância (social, meramente simbólica) de quem os disse, não dependendo de títulos um argumento para ser levado em consideração ou repudiado. No entanto, é um pensamento um tanto utópico de minha parte, pois o que acontece é bem o oposto disso: válidos são os argumentos que têm um diploma e anulados os que não têm. Então, há tantos “pensadores” diplomados que cagam pela boca e uma nação de alunos que devem comer com gosto toda essa bosta que chamam de estudos literários. Penso que, em boa parte dos casos, a única diferença entre aluno e professor é que este já enfrentou aspérrimas provações (que, como já expliquei, não o levaram a nada) e, agora, deve impô-las a seus alunos para que sofram o mesmo, seja por rancor, por imposição do sistema em que são “generais” ou por mero prazer de superioridade. É uma batata quente que se passa pros outros, não conhecimento. São como alunos que sofreram trote quando eram calouros na faculdade e, agora como veteranos, não desperdiçam a chance de fazer a chance de fazer o mesmo.    
São como os escritores masturbadores, que escrevem apenas para que outros vejam sua masturbação, mesmo não havendo prazer algum nisso. Pois a escrita como um processo masturbatório não traz prazer senão para quem a realiza (em muitos casos, nem para seu autor tal escrita é prazerosa). Cada vez há mais livros de literatura sem fluidez e fruição, nascidos com o único propósito de alçar quem os fez; cada vez mais há estudiosos a escrever asneiras que não deveriam existir. O mundo lê mais. O mundo escreve mais. E nunca as palavras que encerram o livro Memórias do Subsolo, de Dostoievski, nunca tiveram tanta ênfase.
            Para concluir, algumas explicações: não me refiro às áreas exatas, mas às humanas, as que se propõem a nos elevar a consciência, a visão artística, a ética pessoal, blá blá blá. Não digo que não se deve escrever. Deve-se escrever muito, aliás, para se chegar a ser um grande escritor. Penso que se deve publicar o mínimo possível. Porquanto, sem dúvida, menos de 0,01 % do que foi e é publicado no mundo tem utilidade. O que é fundamental já existe e há muito já deveríamos ter parado de desperdiçar fôlego intelectual com masturbações que são inúteis e não geram prazer algum. Mas gostamos do que não gera prazer. Do que nos petrifica e destrói. Por isso, criamos tantos estudos humanos; por isso, gostamos de nos masturbar, apesar da nossa impotência como pensadores livres e seres vivos.        




[1] É justamente por saber que o mel não estraga que o pus nessa metáfora.
[2] Oscar Wilde.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Ragnarök (Poema Incompleto)



Quando matar Skoll o Sol em deidade
E Hati destruir da Lua as puras faces,
Sairá seu pai horrendo à mortandade,
Cuja boca do chão aos céus se amplia,
Liberto por sua irmã, do inferno rainha,
Que num sorriso Vida e Morte exibe.

E quem num amplexo o orbe comprime:
Jorrou na extensão das nuvens e terras
De Jormungandi a letífera substância.
Serpente colossal, em toda atmosfera,
Ainda que morta, seu veneno mantivera.
E dos trovões não houve mais ressonância.

Deus poderoso, inteiro e vivo, de súbito
Por Fenrir, lobo gigantesco, foi devorado.
Vidal, seu filho, fez-lhe da vingança o ato:
Co’ mãos hercúleas destroçou a mandíbula
E, com uma lança, o coração do demônio.
Jazia deus digerido em seu estômago.

Tirr, cujo punho direito fora amputado
Pela própria vontade, o cão caçador
Garm, sendo todo de gelo, de terror
Todo composto, venceu e foi derrotado,
Semelhante a Loki, dos reinos o subversor,
Um desfecho por todos predestinado.

Trazidos a Helheim, mesmo que guerreiros,
Tendo com asco e miséria servido a mesa
Os criados de Hella, vão-se os herdeiros
D’arquitetura de Sofrimentos à penitência.
Aos mortos, Preocupação é o sossego;
A Fome e a Inanição suas ferramentas.

Quando a hórrida batalha tão somente
Por cadáveres de deuses se constituía,
Gigante de fogo, consequências perenes,
Decompôs os nove mundos em rubra ruína.
Consumou-se o Ragnarök sem vencedores,
Lugares não restando aos sobreviventes.

Urbanidade e Impossibilidade de Convivência: A Felicidade como Utopia de Crianças




Resumo: O propósito deste trabalho é desmistificar a sublimação dos sentimentos e a ilusão de felicidade arquitetada nas civilizações através das considerações de Sigmund Freud. Para o psicanalista, a civilização vive em um sistema de falsas crenças que, além de sublimar erroneamente a natureza dos indivíduos, também os destituía de sua fruição orgânica. Nesse sentido, o corpus textual estrutura-se em uma seção introdutória, que apresenta o objetivo do estudo; já na segunda seção há a discussão sobre a sublimação dos sentimentos e, na terceira, a incapacidade do ser humano viver em sociedade. Portanto, as civilizações atribuem sua esperança de felicidade a uma utopia de crianças, irrealizável por contrapor-se à realidade de sua constituição humana.

Palavras-chave: Civilização. Sublimação dos sentimentos. Sigmund Freud.

Considerações iniciais
           
 Do homem primitivo às cidades modernas, quais foram as cruciais mudanças? De que maneira pôde ele subjugar a agressividade que lhe fora vital ao ânimo e, por conseguinte, à sua prevalência natural? Atualmente, depois de havermos suplantado o instinto de sobrevivência, o que desejam homens e mulheres para suas vidas? Qual é a máxima significância que procuram para, então, sorrirem ao espelho? Decerto, se perguntássemos às grandes massas o que buscam para suas vidas, ouviríamos, em uníssono, a palavra “felicidade”, ou dela qualquer termo derivado.
Em suma, suas bocas emitiriam a ideia de bem-estar, de paz e repouso. De um conceito próprio e, ao mesmo tempo, impessoal de felicidade: é o que todos diriam, a seu modo. Por essa razão, foi com o propósito de desmistificar a santidade humana, de expurgar das civilizações a ilusão de felicidade, expondo em simultâneo a impossibilidade de sermos o que afirmamos, de convivermos caso não hajam paliativos à nossa consciência, e, sobremodo, a feiúra que nos é inerente e necessária, que Sigmund Freud (1856-1939) escreveu em 1930 o livro O Mal-Estar na Civilização.
O livro que norteia este estudo trata-se, em parte, da continuação do livro O Futuro de Uma Ilusão, de 1927, em que o Pai da Psicanálise ataca duramente as religiões, afirmando-as como um sistema de falsas crenças que, além de sublimar erroneamente a natureza dos indivíduos, também os destituía de sua fruição orgânica. Também, em parte, é admitida pelo próprio Freud a preocupação em não estar sendo demasiado óbvio, por pensar ele que essa desmistificação já fosse conhecida pelos estudiosos. Na verdade, esse questionamento reflete a vontade do autor de que, a altura dos fatos, suas teorias quanto ao “sentimento oceânico” (que largamente é citado no começo do livro e designa um sentimento etéreo, imenso em comparação aos demais e indescritível por nós – que, segundo um amigo de Freud, seria o único vínculo dele com a crença de um deus acima de nós), à artificialidade e fragilidade da civilização humana como um sistema superior à natureza, já estivessem estabelecidas na consciência popular.   

2 Sentimento Oceânico:
           
            Conforme já foi citado, o sentimento oceânico configura, talvez, a emoção mais grandiosa e supérflua do ser humano, pois é a sublimação de mistério insolúvel, de algo que lhes falta e é maior do que as propensões orgânicas do indivíduo. É um sentimento do que é sublime e obscuro, não visível ou compreensível para nós, que preenche lacunas existenciais enquanto forja outras, pois o ser humano não depende da resolução de seus problemas, mas, sim, da esperança de resolvê-los, visto que ao findarmos preocupações, vermo-nos-emos na obrigação de arranjar outras que o sangue efervesça.
            Além disso, conforme o autor, o “sentimento oceânico” é a tradução de nossa carência paterna, o que resultou na invenção de deuses, crenças e superstições que supririam essa falta. É a sublimação em seu grau máximo de uma carência que nos faz ter a impressão que um oceano deságua em nós. A certeza que elegemos como a mais absoluta provém dessa impressão internalizada… dessa carência intrínseca. Nas palavras dele:

A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, ainda está envolto em obscuridade (FREUD, 1930, p. 3).

           
Freud não renega a existência dessa imensurável impressão, ainda que ele mesmo admita não o sentir, como afirma: “não consigo descobrir em mim esse sentimento ‘oceânico’. Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos” (FREUD, 1930, p. 1). No entanto, ele desmistifica a propriedade divinal dessas “aparências oceânicas”. Então, não tendo mais um aporte etéreo, o ser humano busca afirmar sua divindade terrestre num conjunto de regras irrealizável, em convenções de boas aparências que lhe são incompatíveis à natureza. E atribuem sua esperança de felicidade a uma utopia de crianças, irrealizável por contrapor-se à realidade de sua constituição humana. É o que a continuidade deste estudo abordará.

3 A Civilidade como Artifício; a Naturalidade Selvagem do Homem

            Na concepção de Freud, a agressividade primitiva, que deu ânimo ao homem para sobreviver às forças da natureza, ao assédio de outros animais, não foi domesticada e, no máximo das hipóteses, encontra-se latente, agrilhoada às convenções sociais. Ou seja, coexiste com a civilização que criamos a agressividade que nos trouxe até aqui. Aliás, segundo Freud, é essa vontade primitiva o motor de nosso ânimo vital. É por causa dessa ânsia irrefreável, que não reconhece linguagens nem o mundo externo, que nos movimentamos e nos sentimos vivos. Trata-se de uma força interna que somente exige e, quando contrariada, não podendo saciar sua vontade, gera desânimo no indivíduo. Um mal-estar que lhe é indissociável no âmbito social.
            Desse modo, havendo diversas imposições na sociedade, o indivíduo sente-se esmagado por essa força interna e pelas responsabilidades externas. Ademais, Freud aponta a impossibilidade de sermos felizes (e não somente satisfeitos em determinadas ocasiões) a três fatores prejudiciais, o que nos torna mais suscetíveis a perder nossas réstias de felicidade do que mantê-las. Nas palavras de Freud (1930, p. 4): 

[...] nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrime A derivação das necessidades religiosas nto nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.

            Em conclusão às palavras dele, há o mal da incompatibilidade, de diferença entre os indivíduos e de uma insuportabilidade velada de todos para com todos. O filho coibido pelo pai, por exemplo, assume uma ambivalência de amor e ódio para com o progenitor. Deseja ver-se livre da opressão, em razão da força interna que o predispõe a rebelar-se contra quem for, ao mesmo tempo que se vê coagido a obedecer por temer a autoridade dele e, numa idade mais avançada, por temer a própria autoridade.

4 Reflexões finais
           
            Torna-se nítido, depois desse estudo, que a neutralidade do ânimo vital é causadora de um desconforto, pois não representa o que corpo quer e necessita. Então, assume-se a projeção embrutecedora de um “sentimento oceânico” para suprir essa monotonia do sangue, essa falta natural, ao passo que o indivíduo começa a visualizar essa vontade adulterada como algo divinal e precioso, de que ele está em constante busca, reproduzindo o sistema da vida (sobrevivência e caça contínua) à mercê de um sistema falho de crenças e boas aparências… um conforto infantil. 

Referências

SIGMUND, Freud. O mal estar da civilização: volume XXI. [S.l: s.n], 1930. 21 p.