quarta-feira, 27 de junho de 2012

OS ELEITOS POR DEUS



 
Atingir aos Céus, resplender no Paraíso eternamente: eis os sonho da humanidade ou, pelo menos, de boa parte dela. Se acontecerá ou não o que há milênios é previsto por muitos, não sei dizer; no entanto, digo que ninguém será arrebatado pela sua bondade. Como disse o autor Oscar Wilde, “absurdo separar as pessoas entre boas e más. Elas são encantadoras ou tediosas”, o conceito de que uma pessoa apenas subirá aos céus através de suas boas ações e tão somente por isso me parece incabível. Se os anjos são seres supremos, como reagiríamos frente a eles? A respeito de que e de qual modo nos expressaríamos? Qual seria a nossa importância em comparação à deles? Em que poderíamos denotar resplandecer diante de tal fugor? Perante Jesus, nos portaríamos como meros cordeiros sem direção? Perante o Altíssimo, como pulgas num circo? 
Muitos dizem amar a Deus e serem os Seus eleitos, mas não Lhe demonstram amor por não se aperfeiçoarem e honrarem os atributos que Ele lhes concedeu. É como se amassem um time qualquer, torcendo apenas pro mesmo vencer por uma questão de ufania, podendo assim gabar-se de uma falsa vitória sem profundamente valorizá-la. Quem ama a Deus deveria no mínimo aprender o idioma das Escrituras Sagradas, para lê-las limpas das deturpações de qualquer tradutor. Assim como, buscaria o máximo de conhecimento possível de todas as criações do mundo, desde naturais a artificiais, pois todas são Dele, visto que Ele criou seres que também podiam criar e, sendo onisciente, é óbvio que nada Lhe escapa aos olhos, nem ações e criações de seus filhos assim como as alegrias e sofrimentos futuros que lhes sobrevirão, pois tudo é proveniente de Sua Vontade. “Um comediante a atuar para uma plateia demasiado assustada para rir”, disse Voltaire. Estar mais próximo da perfeição do Criador é a verdadeira forma de amá-Lo, não com orações. Orar é a mais alto pecado, porquanto Ele é onipotente e sabe que nos aflige e como curar nossas chagas, além de que um deus de amor não pediria que não nos humilhássemos para Lhe implorar alento e salvação (aliás, sendo Perfeito, não há de querer nem que O adoremos, pois Sua autosuficiência é infinita!). Mas não é o acontece, já que muitos pensam que só por acreditar Nele, Amá-lo (com desprezo, por renegar seu dom mais sublime e Divino – o pensamento!) e, por isso, por julgarem estar no lado dos “mocinhos”, permitem-se apodrecer em vida, eximindo-se de evoluir física e mentalmente como nos obriga a primitiva natureza, não a moderna ociosidade a que estamos atados. Em razão de nossos hábitos e conceitos, há tempos deixamos de evoluir. Isso desmistifica a evolução, pois, como Nietzsche falou, “o macaco é um animal demasiado nobre para que tenhamos provindo dele”. Aliás, todos os animais têm mais nobreza do que qualquer humano pela guerra que hão de enfrentar todos os dias. O conforto nos sentenciou; nossas certezas também.
"O que é um homem, se a sua máxima ocupação e o bem maior não passam de comer e dormi? Uma simples besta. Decerto, quem nos criou com a faculdade que ao passado e ao futuro nos transporta, não nos deu a razão divina para que fique inútil…” Hamlet.
"... Pois mesmo o sol, tão puro, gera vermes num cachorro. Deuses gostam de beijar carniça." Idem.
Logicamente, há quem diga que, após a morte os sentidos se aguçam e nossa sabedoria se expande imensuravelmente. Perceptivelmente, não nascem almas tão esclarecidas quanto o que é apregoado, o que descarta a idéia de evolução espiritual, pois, se estamos num ciclo de melhoramento contínuo, e é eterna a alma, porque nascem tanto imbecis, muito mais do que antigamente? Além do mais, se a real evolução está no espírito, o que estaríamos fazendo aqui? Por que existiria este plano desnecessário? Aliás, não há motivos para que não nasçamos no Éden dos Céus que nos é prometido, porquanto comemos o fruto da Árvore do Conhecimento e não o da ignorância. E Deus é amor e compaixão irrestritos…
Fico a imaginar o que fariam os “legítimos” crentes de hoje, os Eleitos por Deus, se estivessem diante dos anjos de John Milton? Como iriam se portar? Que entendimento, que significância teriam?

“Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo…”
Mário Quintana