segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Matrix e seus Reais Paradoxos

"Primeiro Ato é achar,
Perder é o segundo Ato,
Terceiro, a Viagem
em busca
Do
'Velocino Dourado'

Quarto, não há Descoberta —
Quinta, nem Tripulação —
Por fim, não há Velocino —
Falso — também — Jasão
."

Poema de Emily Dickinson [1].


Apesar de não ser considerado pelos críticos mais exigentes (e, atrevo-me a concordar com tal opinião, embora eu tenha simpatia pelo tom apocalíptico do enredo) como uma obra-prima do cinema, o mundo distópico de Matrix é absurdamente assustador, por não se tratar de uma ficção.
Obviamente, esta constatação, deve remeter a um futuro devastado, no qual a humanidade está sendo dizimada por haver coadunado com a tecnologia uma espécie de razão própria e perdido o controle suas criações em tudo superiores aos homens (Drs. Frankenstein do novo mundo!), tal como é no Exterminador do Futuro I e II (ainda aguardo por uma sequência decente destes clássicos…), onde o Apocalipse que ainda está por vir será consumado pelos recursos tecnológicos que criamos a nosso benefício e aos quais atribuímos inteligência e discernimento, ocasionando uma guerra entre as máquinas de aço e as máquinas de carne e ossos; ou no excelente Blade Runner, onde os replicantes desenvolvidos em laboratório têm mais vitalidade e argúcia do que os humanos rebentos da Natureza.
Não. Não me refiro a esse parâmetro, embora isso também seja algo assombroso. Mas, como Saramago elucida no livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, cujo embasamento é que enxergaríamos mais quando cegos (e quem permanece a enxergar num mundo de cegos torna-se o crucificado…), seríamos mais solidários e humanos… ou mais irracionais do que nunca. Ao menos, nos seria dada a oportunidade de melhor enxergar, ainda que pudéssemos, tomados pelo desespero, nos cegar na completa loucura e bestialidade de uma vez por todas. Enfim, não é sobre isso que pretendo discorrer. O que Matrix retrata – e é terrível – já está entre nós muito antes de existirem os computadores. Aliás, não sei indicar em que época isso começou. Talvez, desde o primeiro instante em que algum humano teve razão – ou fôlego. A que então me refiro? O que é tão hediondo? A Matrix… simples e puramente.
Vivemos e não vivemos, em simultaneidade… a sociedade é nossa Matrix. E nada que vemos, de fato, existe (retornando ao Mundo de Aparências de Platão, o voraz e antiquíssimo fantasma!). Crescer, trabalhar, casar, multiplicar-se e morrer: eis o indivíduo, eis a sua consumação! Existimos à sombra de um destino pré-fabricado… um futuro amortalhado trivial. “Do pó vieste e ao pó retornarás”… que há nesse intervalo chamado vida? Do pó ao pó qual existência? Apenas o vácuo… uma redundância de tempo.  Acostumamo-nos, desde cedo, a contentar-nos com uma felicidade estapafúrdia, entorpecente, que só inebria o indivíduo deixando-o escasso do querer, apartado de seus impulsos e originalidade. Trabalho, casamento, filhos, pactos sociais, festinha de sexta-feira, futebolzinho de domingo... e tornamos ao pó, à morte, da mesma maneira que dela emergimos. Sempre disse que, geralmente, o máximo que um homem conquistará na vida é um carro, independente de ele vir a construir uma casa, possuir uma empresa, formar família, etc., etc., pois o resto apenas será uma repetição. A mansão que ele poderá adquirir não é mais significativa do que o primeiro carro. E finda-se a vida. No caso da mulher, é quando arranja casamento e têm filhos, já que elas, em maioria, procuram desesperadamente por estas duas coisas como se nada mais existisse, ainda que o casamento nos divida, mate o indivíduo, e filhos, apesar de terem o seu lado bom, restringem o ser devido aos encargos que o desenvolvimento de outra vida requer. E finda-se a vida própria, pois mais nada almejarão; tampouco hão de aperfeiçoar-se. Não afirmo que não se possa viver desse jeito, casar, ter um carro e filhos (pois não é situação que nos moldará, mas sim nossa própria mente – a razão que iremos construir), contanto que os mesmos não causem detrimento à individualidade e evolução do homem. Logicamente, me refiro a uma “evolução” que vai contra as demais evoluções e os paradigmas sociais, sobrepujando-os. “Ordem e Progresso” serve apenas para quem nele se anula como pensador. A liberdade de que falo transforma o homem, tornando obsoletos, para ele, todos os padrões. Cria o caminho enquanto caminha; não é joguete de mandamentos e restrições sociais. Sua lei é única e indivisível. "Um só lei para o Leão e para o boi  é só opressão..." (William Blake). O leão caça por toda a extensão a ele acessível; o boi nem sequer sabe que há outros pastos, outras existências (sequer a própria existência), e inerte fica a esperar seu natural  predador... o Tempo.       
Conseguir uma promoção no trabalho, assumir a presidência da empresa, tornar-se um milionário ou mendigo… nenhuma dessas coisas nos fazem diferentes do pó que se acumula sob a terra. Aliás, ao que parece, nunca conseguiremos nos desfazer dessa funesta semelhança, independente de quão importantes havemos de nossa tornar. De fato, não me refiro à importância, ao significado que damos às coisas, pois não passa de uma atribuição volúvel… uma convenção. E, assim como a beleza, a pureza, a perfeição, não existe porque provém de nossas cegas concepções. A Natureza, a Vida não reconhece o valor de nada e sequer imagina que nós desenvolvemos uma lógica.

“… Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso…”
Trecho da poesia "Uma Criatura". Machado de Assis.

O mundo e o pensamento humano são dois contextos distintos e incompatíveis. Do contrário, catástrofes naturais não assolariam cidades e nossos apelos seriam ouvidos pelas árvores, mares, pelos leões e formigas… e por aí vai. Não são a Natureza ou os animais os culpados: foi o homem quem desvelou sua treva, formulou uma linguagem só a ele inteligível, com a qual pôde desenvolver sua reminiscência e estabelecer o conhecimento. A única vantagem de nossa artificial percepção é que esta tem, ou deveria ter, a capacidade de ter noções dos pensamentos da Natureza e analisá-los para que com mais força pudéssemos viver e aperfeiçoarmos (se esperarmos por ela… morreremos em vida... a Natureza jamais se dará conta de nós, vendo-nos do mesmo modo que vê um mosquito ou uma baleia). Deveríamos estar à frente dos outros seres da Terra, por conseguirmos distingui-los, assimilá-los... mas é o contrário disso que a nós se sobrepõe esmagadoramente. Os desígnios de uma nação, objetivos que a sociedade estipula para que sejamos alguém nada mais são do que grilhões camuflados. E assim volvemos à nulidade do “2 e 2 são 4” do Dostoievski e ao subsolo no qual estamos enclausurados, movidos por restritos conceitos, com os braços distendidos e a mente apodrecida. Nisso, vale o comentário de um amigo meu deveras inteligente: “Onde há objetivos, não há vida.”, que, no contexto da conversa, significa que já somos o objetivo máximo, basta que caminhemos livres para sermos plenos, recriando-nos a cada passo com mais fruição, com mais intensidade.
            Evidentemente, não afirmo que não devamos ter objetivo (se não, nunca teria escrito esse texto), mas, logicamente, devemos ter consciência de que nossos objetivos são para nós e que nós somos seus escravos. Nós os movimentamos; não o oposto. Pois os “homens diretos e de ação”, oriundos do sistema “2 e 2 são 4”, não são mais humanos… máquinas. Uma vez, foi perguntado a um escritor (cujo nome não me recordo) se ele acreditava em vida após a morte? Ele respondeu: “Vida após a morte! Deveriam se preocupar se há vida na própria vida!”. E é isso que a sociedade, culturalmente, à maneira de paradigmas, tem imposto ao povo, ao indivíduo durante milênios. A Matrix é um ancestral teatro, e nós seus atores em enfadonho espetáculo, pois, ao que ponto nos elevamos na consciência, vemos quão vazios e tediosos eram nossos dias quando vivíamos para o coletivo. “O mais intratável dos males: o tédio” (frase de meu conto “Poente da Eternidade”). Recriação é a única veraz plenitude. Mas, para tal, deveríamos alcançar o máximo de nossas capacidades intelectuais, porque é em nossa mente que está a verdadeira Redenção. Se pensássemos, se imaginássemos, se pudéssemos ver o mundo tal como ele é e seus caminhos infinitos, já há muito teríamos escapado da Matrix.

            “Por que, então, sendo todos os seu hábitos e vontades movidos por penúrias, agrilhoado às imposições de um áspero ambiente, recriou-se o homem tão amortalhado? Grunhir é a sua eloquente resposta…” Trecho de minha poesia “Canção às Convenções”.

            Sei que muitos não concordarão com esse texto e não os culparei. Outra metáfora do filme Matrix associado à mente é o fato de eles não darem a “pílula libertadora” a adultos, já que isso poderia matá-los. É difícil se desraigar de uma realidade, sendo ela aprazível ou detestável (nos acostumamos a tudo e vivemos o horror contentados), matar nossos heróis, ver nosso errado mundo ruir: é um peso e tanto. Todavia, é através dessa desconstrução que encontraremos a vida que, em tempos remotos, dada a nossa ignorância, perdemos para sobreviver, pois apenas nos restringindo poderíamos debelar nossa bestialidade geradora de guerras e assassinatos. Hoje, basta que a reintegremos… reinventemos. Existe vida além da vida... e já nos é acessível agora, não quando morrermos.
            Irônico que no filme a Matrix é o mundo das oportunidades e o mundo real é escasso e desértico, o que torna mais difícil de as pessoas aceitarem a verdade; a meu ver, vivemos o inverso: habitamos o deserto insuportável e rejeitamos as frutíferas vastidões. Irônico, não achas?

"Eu gostaria de te contar uma revelação que eu tive durante o meu tempo aqui. Ela me ocorreu quando eu tentei classificar sua espécie e me dei conta de que vocês não são mamíferos. Todos os mamíferos do planeta instintivamente entram em equilíbrio com o meio ambiente. Mas os humanos não. Vocês vão para uma área e se multiplicam e se multiplicam, até que todos os recursos naturais sejam consumidos. A única forma de sobreviverem é indo para uma outra área. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão. Você sabe qual é? Um vírus. Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga. E nós somos a cura." Sr. Smith.



[1] No original: “Finding is the first Act / The second, loss, / Third, Expedition for / The ‘Golden Fleece’ / Fourth, no Discovery — / Fifth, no Crew — / Finally, no Golden Fleece / — Jason — sham — too.”